Investigação, críticas médicas e defesa de normas, o caso de Tarauacá mostra controvérsias sobre o coquetel de vitaminas e quem pode aplicar injetáveis
Um homem de 31 anos morreu dias após receber um coquetel de vitaminas em uma farmácia, e o episódio reacendeu o debate sobre segurança, prescrição e fiscalização desses procedimentos.
Especialistas afirmam que não há comprovação científica para o uso rotineiro desses coquetéis em pessoas saudáveis, enquanto órgãos de classe lembram regras para aplicação em estabelecimentos farmacêuticos.
A sequência dos fatos e as posições de profissionais e familiares estão sendo investigadas, conforme informação divulgada pelo g1.
O que dizem os especialistas sobre eficácia e riscos
O cirurgião geral e professor Nilton Ghiotti ressalta a ausência de respaldo científico para os chamados coquetéis vitamínicos, e alerta para efeitos adversos em pacientes sem deficiência comprovada.
Segundo ele, “Não há nenhuma evidência científica de que esses coquetéis funcionem, desta forma, não são recomendados. Em casos de deficiência vitamínica comprovada, que não ocorre em pessoas que se alimentam adequadamente, a medicação deve ser prescrita pelo médico”.
Ghiotti também aponta riscos potenciais, como reações anafiláticas e hipervitaminose, que podem sobrecarregar órgãos como os rins, e lembra que “Nada supera uma dieta equilibrada com verduras, legumes, frutas, proteínas como carnes, ovos, leite e as gorduras boas, como o azeite, castanhas, abacate e principalmente fazer atividades físicas regularmente, pelo menos 40 minutos por três vezes na semana”.
Regras para aplicação em farmácias, o que profissionais afirmam
Para a presidente do Conselho Regional de Farmácia do Acre, Larissa Botelho, a aplicação de injetáveis em farmácias é permitida, desde que haja estrutura adequada, profissionais habilitados e, obrigatoriamente, prescrição médica.
Ela afirma, “Podem ser aplicados em farmácias, sim, por farmacêuticos ou profissionais habilitados, desde que o local tenha estrutura adequada e autorização sanitária. No entanto, é obrigatória a apresentação de prescrição médica para esse tipo de aplicação”.
Botelho reforça que, apesar da autorização, o uso indiscriminado é perigoso, e recomenda: “O mais seguro é sempre buscar avaliação médica antes de iniciar qualquer tipo de suplementação injetável”.
Como ocorreu o caso relatado em Tarauacá
De acordo com familiares, Maiko Oliveira França procurou o estabelecimento no dia 18 de março sentindo tontura, e teria recebido a indicação para aplicação de um coquetel de vitaminas por uma atendente.
Os parentes disseram que a injeção foi feita por uma mulher que seria filha dos proprietários, e que Maiko manifestou hesitação antes de aceitar a aplicação. Nos dias seguintes houve piora do quadro clínico.
Ele voltou à farmácia no dia 19 com dores intensas e recebeu apenas um spray analgésico, e no dia 20 apresentou hematomas, dor intensa e foi atendido em hospital local. Maiko foi transferido para Cruzeiro do Sul em estado crítico, e morreu no dia 22 de março, com causa apontada como sepse associada a fasciíte necrosante.
Investigações e desdobramentos legais
O Ministério Público do Acre instaurou procedimentos nas áreas criminal e cível para apurar as circunstâncias da morte, e o Conselho Regional de Farmácia do Acre também acompanha o caso junto aos órgãos de justiça.
Familiares realizaram protesto local, e relatam revolta com o funcionamento normal da farmácia após o episódio, pedindo responsabilização, enquanto autoridades analisam se houve erro profissional ou descumprimento de normas sanitárias.
Especialistas consultados, e representantes do CRF-AC, concordam que a maior segurança para o público é a exigência de prescrição médica, a avaliação profissional prévia e a observância de critérios sanitários em todos os locais que realizam aplicações injetáveis.
O caso reforça alertas sobre a promoção do coquetel de vitaminas como solução rápida para sintomas comuns, e lembra que condutas médicas e farmacêuticas devem priorizar evidência científica, prescrição e segurança do paciente.
