Do jejum medieval à mesa contemporânea, por que o bacalhau na Sexta-Feira Santa se consolidou como hábito entre simbolismo religioso, herança portuguesa e razão prática
A substituição da carne pelo peixe na Semana Santa tem raízes antigas, e o bacalhau virou protagonista em muitas mesas brasileiras por uma combinação de fé, cultura e logística.
O jejum e a abstinência vêm desde os primeiros cristãos, mas foi na Idade Média que regras sobre evitar certos alimentos ganharam forma, com destaque para a proibição da carne em dias específicos.
Ao mesmo tempo, um produto que se conserva sem refrigeração, como o bacalhau salgado e seco, facilitou a adoção do peixe nas casas brasileiras, especialmente quando a quaresma ocorre no verão, conforme informação divulgada pelo g1.
Jejum, penitência e o simbolismo religioso
A prática do jejum e da abstinência, associada à Páscoa, procura traduzir o sacrifício de Jesus em atos de autocontrole e penitência. O historiador André Leonardo Chevitarese observa que “a chave para pensar essa questão, se não é econômica, tem a ver com a questão religiosa”.
Segundo o teólogo Gerson Leite de Moraes, a Páscoa é o momento ideal para a experiência penitencial, e a substituição da carne por peixe na Sexta-Feira Santa foi uma expressão histórica dessa lógica religiosa.
Por que o peixe é permitido e o significado do ichthys
O peixe tem simbologias antigas no cristianismo, representadas pelo termo grego ichthys, que serviu de acrônimo para Iesous Christos Theou Yios Soter, ou seja, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.
Além do símbolo, havia também uma leitura prática: peixes eram parte do cotidiano nas comunidades do Oriente Médio e passaram a ser associados a um consumo aceitável em períodos de abstinência.
O papel de São Tomás de Aquino e a proibição da carne vermelha
No século 13, São Tomás de Aquino ajudou a estruturar a ideia de que o jejum devia privar dos prazeres mais apreciados, apontando carne e laticínios como alimentos ligados ao prazer sensorial, o que reforçou a proibição da carne vermelha em certos dias.
Na tradição, a distinção entre o que é ou não “carne” tem variações locais curiosas, como relatos de bispos que consideraram jacaré ou castor como peixes em determinados contextos, o que ilustra brechas práticas na aplicação das regras.
Por que o bacalhau e a influência portuguesa
Não existe uma prescrição da Igreja sobre o uso do bacalhau, e a pesquisadora Mirticeli Medeiros explica que a tradição ganhou força no Brasil por causa da influência portuguesa, que trouxe o consumo do bacalhau ao país, especialmente a partir do século 19.
O padre Eugênio Ferreira de Lima comenta a tensão econômica do costume, lembrando que “sobretudo porque bacalhau é mais caro do que certas carnes”. Ainda assim, o valor simbólico e a disponibilidade em empórios coloniais ajudaram a consolidar a prática.
Como produto curado com sal e desidratado, o bacalhau podia ser conservado por mais tempo sem refrigeração, o que o tornou prático em um país tropical, e a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 intensificou sua presença comercial.
Tradição, mercado e críticas contemporâneas
Com o tempo, a prática virou também oportunidade comercial. O teólogo Gerson Moraes observa que “quando algo cai no gosto da prática mercantilista comercial, tudo vira mercadoria”.
Há críticas atuais, especialmente em períodos de alta inflação, sobre a coerência da abstinência quando o alimento substituto, o bacalhau, é mais caro, e sobre a dimensão social do jejum, como defende o padre Eugênio ao questionar a falta de partilha com os pobres.
Em resumo, o hábito do bacalhau na Sexta-Feira Santa nasceu da interseção entre tradição religiosa, simbolismos do peixe, decisões teológicas medievais e a presença histórica portuguesa, além de fatores práticos de conservação que facilitaram sua adoção nas mesas brasileiras.
