Show “Fitti canta Ney” mistura teatralidade e inovação para revisitar a obra de Ney Matogrosso com frescor e respeito autoral
Em uma noite marcada pela energia e pela arte, o cantor e ator pernambucano Fitti apresentou um espetáculo que vai além da simples homenagem ao icônico Ney Matogrosso. O show “Fitti canta Ney”, dirigido artisticamente por Marcus Preto e com a direção musical do baterista Pupillo, impressionou o público do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, com uma abordagem única e cheia de nuances.
Com 16 músicas cuidadosamente selecionadas, a apresentação trouxe à tona toda a estranheza e a singularidade autoral de Ney Matogrosso. Fitti não se limitou a reproduzir os clássicos; ele emprestou sua assinatura, dando um caráter absolutamente pessoal e contemporâneo ao repertório que já é referência na música brasileira.
O ambiente cuidadosamente construído para o show contou com elementos sonoros e visuais que conduziram o público por diferentes estados emocionais, ressaltando tanto o peso político como a poesia e o experimentalismo da obra de Ney.
Performance performática com forte presença cênica e musical
Fitti utilizou sua formação como ator para transformar o show em uma experiência teatral intensa. A entrada no palco acompanhada por sons de chuva e trovoadas ajudou a criar uma atmosfera cheia de expectativa. A abertura com “Homem de Neanderthal” deu o tom roqueiro inicial que se manteve em canções como “Tem gente com fome” e “Flores astrais”.
Além da voz marcante, o cantor interagia com o público e o espaço do teatro, incorporando movimentos e gestos que enfatizavam o significado emocional de cada música. Momentos como a mudança de figurino atrás de um biombo evocam diretamente os espetáculos icônicos do próprio Ney, reforçando o diálogo entre as duas personalidades artísticas.
Resgate de diferentes fases e climas do repertório de Ney Matogrosso
O roteiro explorou diversas fases da carreira do cantor sul-mato-grossense, do álbum homônimo que marcou sua estreia solo à fase mais experimental do disco “Bugre”. Em um contraste sensível, Fitti trouxe à tona “Dívidas de amor”, um raro momento autoral de Ney, aproximando a música do universo do brega pernambucano.
A interpretação de “Balada do louco” destacou a delicadeza vocal de Fitti, que combinou teclados e synths para renovar a clássica canção dos Mutantes. A diversidade do repertório proporcionou ao público diferentes climas, do político “O patrão nosso de cada dia” ao sensual “Seu tipo”.
Reinvenção e identificação marcada na interpretação de músicas icônicas
Entre os momentos mais impactantes do show, a interpretação de “Homem com H” ganhou nova vida pela voz de um artista trans, fortalecendo o caráter libertador do espetáculo. Durante “Bandolero”, a performance conquistou tom ritualístico, enquanto nas canções “Sangue latino” e “Noite severina”, o cantor interagiu com o público de forma intensa e emocionante.
Com uma voz e presença que equilibram potência e sutileza, Fitti apresentou um show que transcende a mera reprodução musical, reafirmando sua própria identidade artística e evidenciando o quanto a obra de Ney Matogrosso continua atual e inspiradora.
Conexão entre tradição e inovação na música brasileira
“Fitti canta Ney” mostra como a arte pode ser transformadora ao respeitar as raízes e, ao mesmo tempo, expressar liberdade e renovação. A direção musical primorosa de Pupillo, somada à banda formada por Yuri Queiroga, Vinicius Furquim e Vic Vilandez, ofereceu uma base sonora vibrante e surpreendente.
O espetáculo reforçou o valor da pluralidade na música brasileira e a importância de reinventar repertórios clássicos. Fitti provou que é possível homenagear grandes nomes com autenticidade, tornando a experiência única para o público e colocando em evidência a vitalidade da obra de Ney Matogrosso em pleno século XXI.
