Consumo episódico excessivo de álcool, como beber muito em um dia, aumenta inflamação e fibrose hepática, mesmo entre bebedores moderados, mostra pesquisa
Episódios pontuais de ingestão elevada de álcool podem ter impacto forte no fígado, mesmo quando a soma semanal parece moderada.
Distribuir bebidas ao longo da semana é menos prejudicial do que concentrar muitas doses em um único dia, segundo pesquisadores.
O risco é especialmente alto entre pessoas com fatores metabólicos, como obesidade e diabetes.
conforme informação divulgada pelo g1
Padrão de consumo e dados do estudo
O estudo analisou mais de 8 mil adultos em um levantamento nacional de saúde dos Estados Unidos, com exames por elastografia hepática para medir rigidez e fibrose. Foram utilizados dados de adultos submetidos à elastografia hepática. Entre 8.006 indivíduos, 4.571 tinham doença hepática esteatótica (DHE).
Entre os casos de MASLD (doença hepática associada a fatores metabólicos), 15,9% apresentavam consumo episódico excessivo. O consumo episódico excessivo, definido como quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, ao menos uma vez por mês, foi associado a um risco até 3 vezes maior de fibrose hepática avançada.
Os autores destacam que não é apenas a quantidade total de álcool ao longo do tempo que importa, mas também o padrão de ingestão, portanto o consumo episódico excessivo de álcool merece atenção independente do total semanal.
Como o álcool agrava o fígado
Ingerir grandes quantidades de álcool em uma única ocasião pode sobrecarregar o fígado, aumentar a inflamação e favorecer a formação de cicatrizes. O álcool gera metabólitos agressivos ao órgão e altera respostas imunes, elevando a chance de evolução para fibrose e cirrose.
O hepatologista Raymundo Paraná explica, “Toda vez que você faz uma ingestão alcoólica, você encharca mais o fígado de acetaldeído – um pró-inflamatório e um pró-fibrogênico – que pode aumentar a deposição de fibrose, cicatrizes no fígado. Isso faz o indivíduo evoluir para cirrose hepática e aumenta a inflamação que também estimula a fibrose”, comenta o médico.
Além do dano hepático direto, o álcool piora o perfil lipídico, aumenta triglicerídeos e colesterol LDL, e pode agravar riscos cardiovasculares, sendo estes frequentemente mais imediatos em termos de risco de vida do que o próprio risco hepático.
Abstinência pode reverter danos, e cuidados são necessários
Outro estudo internacional mostrou que a abstinência completa e mantida pode levar à recuperação funcional do fígado, inclusive em casos de cirrose. A pesquisa acompanhou 633 pacientes com cirrose alcoólica em 17 centros especializados na Europa e na Ásia e apontou que a abstinência completa e mantida pode levar à recuperação funcional do órgão e à resolução de complicações em até um terço dos casos.
Ao longo de cinco anos, cerca de um terço dos pacientes apresentou recompensação completa, ou seja, deixou de ter complicações e recuperou a função hepática. Os autores ressaltam, porém, que recaídas pioram o prognóstico e aumentam mortalidade e custos de tratamento.
Riscos da interrupção sem apoio e recomendações práticas
Especialistas lembram que quem tem transtorno por uso de álcool pode desenvolver síndrome de abstinência, com sintomas como palpitações, sudorese, agitação, irritação, inquietude, convulsões e até mesmo alucinações. Esse quadro pode ser grave, portanto a orientação é buscar acompanhamento médico ao planejar parar de beber.
Para pessoas com doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, a recomendação é reduzir ao máximo o consumo e, quando possível, interromper totalmente. “Quando o paciente já tem uma doença hepática, a orientação é que reduza o máximo e pare de beber”, afirma Paraná.
O estudo reforça que médicos e políticas públicas precisam considerar não apenas quanto o paciente bebe, mas como concentra esse consumo, já que o consumo episódico excessivo de álcool está ligado a um aumento marcado do risco de fibrose, especialmente em quem já tem fatores metabólicos de risco.
