Reconstituição detalhada mostra como o brilho azul de uma cápsula de césio-137 levou a exames em massa, demolições e décadas de consequências sociais e ambientais
Em setembro de 1987, um objeto encontrado em uma clínica abandonada mudou para sempre a rotina de Goiânia e colocou o Brasil entre os casos mais graves de contaminação radioativa fora de instalações nucleares.
A cápsula de radioterapia, transformada em pó por curiosos e espalhada como sucata, provocou doenças, pânico coletivo e operações de descontaminação de grande escala.
O relato desta reportagem reúne nomes, dados e trechos de documentos e reportagens para explicar o que aconteceu e por que o episódio ainda marca a memória pública, conforme informação divulgada pela BBC.
Como tudo começou
Dois catadores de lixo, Wagner Pereira e Roberto Alves, entraram em uma clínica abandonada em Goiânia e desmontaram uma unidade de radioterapia. Conforme a apuração, “Dentro, havia um cilindro que continha 19 gramas de césio-137, uma substância altamente radioativa.”
Os homens levaram a peça para casa e, sem saber do risco, abriram a cápsula com chaves de fenda. O material se fragmentou em grãos do tamanho de arroz, que eram fáceis de manusear e foram distribuídos entre familiares e vizinhos.
Algumas pessoas descreviam o pó como um brilho azul, e houve relatos de trechos do material sendo esfregados sobre a pele, como o brilho usado no Carnaval, aumentando a exposição.
A reação em massa e os números da contaminação
Os primeiros pacientes buscaram atendimento com vômitos e diarreia, sintomas no começo atribuídos a intoxicação alimentar. Só depois de investigações e medições realizadas por especialistas foi identificada a radiação.
Equipes evacuaram postos de saúde e isolaram locais contaminados. Foram usados ônibus forrados de plástico para levar centenas de possíveis contaminados a um estádio, onde mais de 110 mil pessoas foram examinadas em buscas por vestígios de radiação.
O relatório da Agência Internacional de Energia Atômica registrou que “a comunidade médica em Goiânia se mostrou relutante em ajudar” e apontou que, ao término das ações iniciais, “Verificou-se que 249 delas tinham níveis significativos de material radioativo em seus corpos.”
Centenas de pessoas tiveram de permanecer em abrigos especiais, e milhares receberam orientações de higiene e descontaminação. O desastre gerou cerca de 6.000 toneladas de resíduos, entre objetos, estruturas e solos removidos e enterrados em um centro preparado a 20 quilômetros da cidade.
Consequências, punições e legado
A contaminação deixou um rastro humano e jurídico. A primeira vítima fatal foi Leide das Neves Ferreira, menina de seis anos que brincou com o pó e chegou a engolir parte do material. Segundo os relatos, ela e sua tia, María Gabriela Ferreira, “morreram de septicemia e sepse, infecções generalizadas, um mês após a exposição ao césio.”
Além delas, outras duas pessoas que trabalhavam no ferro-velho morreram. Incrivelmente, os catadores que retiraram a cápsula, Wagner Pereira e Roberto Alves, sobreviveram, assim como o proprietário do ferro-velho, Devair Ferreira.
Em 1996, cinco pessoas ligadas à clínica onde estava a máquina foram condenadas, “a três anos e dois meses de prisão por homicídio.” A pena foi reduzida depois a serviços comunitários. O governo, por sua vez, passou a pagar pensões vitalícias para cerca de 250 vítimas e, posteriormente, estendeu direitos a outras 2.000 pessoas ligadas ao atendimento e à emergência.
O episódio também deixou marcas sociais profundas, com demolições de casas, pessoas afastadas de trabalhos e um clima de desinformação que alimentou pânico sobre contaminação de alimentos e do solo.
Por que ainda importa
Além do balanço humano e ambiental, o caso de Goiânia é referência em protocolos de radioproteção, comunicação de risco e gestão de emergências, mostrando falhas e lições sobre como responder a acidentes com materiais selados fora de contextos industriais.
A história voltou a ganhar atenção ao ser abordada em produções recentes, lembrando a necessidade de medidas preventivas, educação pública e apoio às vítimas, e reafirmando que o legado do césio-137 em Goiânia segue relevante para políticas de saúde e segurança.
