Alta dos fertilizantes, como ureia e potássio, não deve elevar preços dos alimentos agora, Brasil importa insumos e produtores veem risco no médio prazo

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Com a alta dos fertilizantes, produtores já sentem aumento de custos, mas a maioria das safras de grãos está colhida, e o consumidor não deve ver impacto imediato, conforme informação divulgada pelo g1

A recente alta dos fertilizantes em razão das tensões internacionais eleva os custos no campo, mas não deve se traduzir em aumento imediato nos preços dos alimentos nas prateleiras.

Boa parte da colheita de grãos, como arroz, soja e as primeiras safras de feijão e milho, já terminou ou está em fase final, o que adia o efeito da alta para as próximas safras.

O consumidor não deve sentir os efeitos agora, mas produtores e analistas acompanham a situação com atenção, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o impacto é mais no médio prazo

A explicação é simples, e vem da própria dinâmica das safras, o plantio e a colheita. Quando o fertilizante já foi aplicado e a colheita está em curso, o aumento do preço do insumo não altera o custo daquela produção.

Como observa Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, “Nesses casos, o fertilizante já saiu do solo”, o que ajuda a explicar por que o efeito nos preços ao consumidor tende a demorar.

No curto prazo, a pressão maior sobre o preço dos alimentos tem vindo do aumento dos combustíveis, especialmente do diesel, que afeta maquinário, transporte e distribuição.

Dependência do Brasil e dados sobre insumos

A vulnerabilidade brasileira aos choques globais de preço é alta, porque o país compra grande parte dos insumos no exterior. “O Brasil importa hoje cerca de 85% dos fertilizantes que consome, com destaque para ureia, potássio e fosfatos”, diz André Braz, economista do FGV Ibre.

Em números mais detalhados, Felippe Serigati aponta que “O Brasil importa 90% do seu consumo de nitrogênio, 96% do potássio e, do fosfatado, é um pouquinho menos, cerca de 80%”.

O Oriente Médio é peça importante no tabuleiro global, e “A região tem um papel central no mercado de fertilizantes, respondendo, por exemplo, por 40% das exportações mundiais de ureia e 28% das vendas externas de amônia”, segundo dados da StoneX Brasil, o que liga diretamente os preços locais aos eventos internacionais.

Como cada lavoura pode ser afetada

A alta dos fertilizantes tende a pressionar os custos de produção de forma desigual. Culturas intensivas em NPK, nitrogênio, fósforo e potássio, são as mais vulneráveis.

O milho, por exemplo, depende muito de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, e por isso “é uma das culturas mais vulneráveis no curto prazo”, segundo análises citadas por economistas.

Arroz e trigo também exigem grandes volumes de nitrogênio, o que pode levar produtores a reduzir área plantada, enquanto a soja usa menos nitrogênio, mas demanda grandes aplicações de fósforo e potássio para repor nutrientes do solo.

A cana-de-açúcar, que consome muito potássio, também tende a elevar o custo de produção, com impacto para indústria do açúcar e do etanol.

Riscos de preço e cenários futuros

Há sinais de ajuste já nos mercados internacionais. “Somente nas três primeiras semanas de conflito, o preço da ureia subiu 46%, segundo levantamento do Rabobank”, e, em um período mais amplo, “Quando olhamos para um período mais longo, desde o início do ano até a semana de 20 de março, a ureia apresenta uma alta de 76%”, destaca o relatório do banco.

Se produtores reduzirem área plantada ou diminuírem a adubação por conta do custo, isso pode reduzir oferta e elevar preços dos alimentos no médio prazo, por efeito de queda de produtividade e menor volume colhido.

No entanto, o resultado final também depende do clima e de outros fatores, por isso não é possível cravar uma tendência imediata. Experiências recentes mostram que mesmo com fertilizantes mais caros, uma safra favorável pode segurar ou reduzir preços, como ocorreu em 2023.

Para o consumidor, por ora, o fator mais sensível e direto continua sendo o preço dos combustíveis, que impacta logística e transporte de ponta a ponta da cadeia alimentar.

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