segunda-feira, abril 20, 2026

Conflito no Irã coloca em risco o abastecimento de fertilizantes e o futuro do agronegócio brasileiro

Share

O agronegócio brasileiro, uma das colunas da economia nacional, enfrenta uma ameaça crescente relacionada à guerra e instabilidade no Irã. O país é um dos maiores exportadores globais de alimentos, mas depende fortemente da importação de fertilizantes, especialmente da ureia produzida no Oriente Médio, um insumo essencial para manter a produtividade agrícola.

Dependência da ureia e sistema barter impulsionam relação comercial

O Brasil importa cerca de 75% dos defensivos agrícolas e é o maior comprador mundial de fertilizantes. Entre esses insumos, o trio NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) tem na Rússia um importante fornecedor, responsável por aproximadamente 25% das importações brasileiras.

Entretanto, no caso da ureia – fertilizante derivado do gás natural crucial para o crescimento das lavouras – o Irã é parceiro estratégico. Em 2025, o país asiático respondeu por US$ 72 milhões das compras brasileiras, correspondendo a cerca de 80% do volume importado do Oriente Médio.

Essa relação se intensificou pelo sistema barter, uma modalidade de escambo com troca direta entre produtos. Produtores rurais enviam milho ou soja para o Irã e recebem fertilizantes em retorno pelo mesmo canal. Essa engrenagem logística gera frete mais barato e facilita o escoamento – um benefício para ambos os lados.

Ameaças físicas da guerra e impactos no fornecimento

Enquanto a Rússia enfrenta sanções internacionais que afetam seu mercado, a situação do Irã traz riscos físicos mais imediatos. A instabilidade no estreito de Ormuz, principal rota para o transporte dos fertilizantes, e ataques recentes a centros petroquímicos, que produzem ureia, ameaçam interromper o fluxo desses insumos.

Um ataque em abril a Mahshahr, no sudoeste iraniano, região marcada pela indústria petroquímica, causou mortes e feridos, elevando a tensão na cadeia de suprimentos. A preocupação do setor aumenta, pois não há alternativa fácil para substituir a ureia iraniana no curto prazo, o que poderá resultar em prejuízos à próxima safra e ao abastecimento de fertilizantes em 2027.

Impactos econômicos para produtores rurais

Os agricultores já enfrentam dificuldades financeiras devido a endividamentos e aumentos de custo. A alta dos preços dos fertilizantes, combinada com queda nos preços das commodities, reduz as margens de lucro. A tonelada da ureia subiu de US$ 350 para US$ 550, enquanto o valor da saca do milho praticamente caiu pela metade, e o preço da soja também recuou.

A recente elevação dos tributos, como PIS/Cofins e Funrural sobre insumos agrícolas, intensificou ainda mais o custo de produção. O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF) já apontava que produtores precisam dispor de mais sacas de grãos para adquirir a mesma quantidade de fertilizante, o que impacta o potencial produtivo da agricultura brasileira.

Possíveis estratégias para reduzir vulnerabilidades

Para minimizar os efeitos do bloqueio no Golfo Pérsico, o Ministério da Agricultura estabeleceu acordo com a Turquia permitindo trânsito e armazenamento de cargas, facilitando logística alternativa aos transportes tradicionais. Paralelamente, a Petrobras reativou algumas unidades produtoras de ureia no Brasil, com expectativa de suprir até 35% da demanda nacional nos próximos anos.

Contudo, especialistas ressaltam que o problema é estrutural: o país tem optado pela importação em detrimento do fortalecimento da indústria nacional. O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2023, prevê reduzir a dependência externa para 50% até 2050, e um programa de incentivos chamado Profert busca modernizar a produção interna, mas ainda aguarda aprovação legislativa.

Perspectivas e desafios futuros

A instabilidade internacional escancara a fragilidade da cadeia produtiva brasileira, que precisa diversificar fornecedores e apostar em maior autocapacitação. A reprise das exportações chinesas de fertilizantes a partir de agosto pode ajudar, mas a prioridade atual da China é abastecer seu mercado interno.

Enquanto isso, os produtores rurais aguardam respostas concretas para garantir a sustentabilidade do agronegócio, que é vital para o Brasil. A continuidade da guerra e insegurança no Oriente Médio impõem um cenário desafiador para os próximos anos, exigindo ações políticas e econômicas estratégicas para resguardar a segurança alimentar e econômica do país.

Read more

Local News