Governo registra alta na arrecadação com remessas internacionais, enquanto Executivo e Legislativo avaliam mudanças na taxa das blusinhas
Em janeiro, a arrecadação federal com o imposto de importação sobre encomendas internacionais voltou a subir, em um movimento que reacende o debate sobre a chamada taxa das blusinhas.
O aumento coloca novamente na agenda política a possibilidade de revogação em ano eleitoral, e também reacende o conflito entre receita adicional e o impacto sobre operadores postais e comércio.
Os dados e declarações usados nesta reportagem foram reunidos a partir das informações divulgadas pelo g1
Arrecadação em janeiro e comparação anual
Segundo números da Receita Federal, a cobrança sobre compras internacionais rendeu R$ 425 milhões em janeiro, um avanço de 25% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando a arrecadação foi de R$ 340,9 milhões.
No primeiro mês do ano, foram recebidas 15,3 milhões de remessas internacionais, contra 11,4 milhões em janeiro de 2025, de acordo com os dados oficiais.
Impacto no comércio, no PRC e nos Correios
No acumulado de 2025, a taxação sobre remessas de até US$ 50 alcançou um recorde anual de R$ 5 bilhões, contribuição que ajudou o governo a cumprir a meta fiscal daquele ano.
O Fisco informou que 50 milhões de brasileiros passaram a usar empresas habilitadas no Programa Remessa Conforme, o PRC, e que o número de encomendas ‘não PRC’ no país caiu de 16 milhões em 2024 para 6,5 milhões em 2025.
Embora a medida tenha elevado a arrecadação, ela também agravou a crise financeira dos Correios, que registraram perdas e apontam prejuízos no fluxo de encomendas internacionais.
Debate político e propostas de revogação
Nos últimos dias, setores do governo voltaram a avaliar a revogação da taxa das blusinhas, movimento que, segundo relatos, tem origem na ala política da Presidência e envolve articulações com a Câmara dos Deputados.
Paralelamente, a Câmara já discute um projeto de lei que zera o imposto de importação sobre compras de até US$ 50 feitas por comércio eletrônico, o que, se aprovado, encerraria a referência popular à taxa.
A taxação vigente foi criada em agosto de 2024, após aprovação do Congresso, e prevê cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, medida que buscou reduzir a diferença de carga tributária entre produtos nacionais e importados.
Posicionamento da indústria e fala de Alckmin
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, a Abit, defendeu publicamente a taxação, afirmando que “Os bons resultados decorrentes da taxação de 20% das remessas internacionais de até U$ 50 demonstram a pertinência da isonomia tributária e regulatória.”
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que deixou o ministério para concorrer à reeleição como vice na mesma chapa, afirmou que não participa do debate sobre a revogação, mas lembrou do respaldo que deu ao tributo no passado.
Alckmin disse, em declaração recente, "Defendi lá atrás, porque se você pegar o produto fabricado no brasil, a roupa, ele paga entre 45%, a quase 50% de tributo. Uma média de 45%. O importado está pagando bem menos do que o fabricado aqui dentro (…) Mesmo com a tributação [taxa das blusinhas], ainda é a carga bem menor do que o produto brasileiros".
O que muda na prática e próximos passos
Se o projeto para zerar a taxa prosperar, o governo perderia uma fonte relevante de arrecadação, mas setores do varejo e consumidores poderiam ver queda nos preços de importados de baixo valor.
Por outro lado, manter a cobrança preserva receita federal e atende à demanda da indústria por isonomia tributária, ao mesmo tempo em que cria tensões sobre a logística postal e o caixa dos Correios.
Nas próximas semanas, a discussão deve avançar na Câmara e continuar sendo debatida internamente no Executivo, com impactos possíveis sobre orçamento, emprego e a dinâmica do comércio eletrônico.
