A tradição do bacalhau na Sexta-Feira Santa nasceu da combinação entre práticas religiosas, hábitos alimentares trazidos por Portugal e a necessidade de conservar peixe antes da refrigeração
A observância de não comer carne vermelha na Quaresma e, em especial, na Sexta-Feira Santa, faz parte da prática de jejum e penitência do catolicismo, e varia entre fiéis e regiões.
O consumo de peixe como alternativa tem símbolos antigos, como o uso do peixe entre cristãos primitivos, e regras medievais que ligaram a abstinência à renúncia aos prazeres do paladar.
Conforme informação divulgada pelo g1.
Jejum, simbolismo e regras religiosas
O jejum cristão tem raízes antigas, e na Idade Média consolidou-se a ideia de abster-se de certos alimentos como forma de penitência e autocontrole. A lógica da abstinência está ligada ao sacramento da penitência, e à ideia de que renunciar a prazeres alimentares aproxima o fiel do significado do sacrifício de Jesus na cruz.
O historiador André Leonardo Chevitarese resume o ponto, afirmando, “A chave para pensar essa questão, se não é econômica, tem a ver com a questão religiosa”.
Por que peixe é permitido, e por que o bacalhau ganhou espaço
O peixe tornou-se alternativa aceitável por combinações de simbolismo e tradição. Na antiguidade cristã, o peixe era um símbolo usado pelos primeiros seguidores de Jesus, o que reforçou sua presença em refeições religiosas.
A escolha do bacalhau, porém, tem origem prática e cultural. Como lembra a pesquisadora Mirticeli Medeiros, “Não há nenhuma prescrição da Igreja sobre o uso do bacalhau” e a tradição “simplesmente” veio da influência portuguesa.
Além do simbolismo, o bacalhau era valorizado por sua durabilidade, por ser curado com sal e desidratado, permitindo que fosse consumido sem refrigeração em épocas quentes, como a Quaresma no Brasil.
Influência da corte portuguesa e da oferta no mercado
A presença do bacalhau no Brasil se intensificou com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, quando a iguaria começou a aparecer nos empórios. A partir daí, o consumo cresceu e virou tradição culinária em famílias católicas.
Padre Eugênio Ferreira de Lima fez uma observação econômica que chama atenção, lembrando, “Sobretudo porque bacalhau é mais caro do que certas carnes”, apontando tensões entre tradição religiosa e custo para as famílias.
Tradição, interpretação e brechas culturais
A definição do que é carne, e do que conta como peixe para efeitos de abstinência, variou historicamente e regionalmente. Já houve interpretações locais que classificaram animais como jacaré, capivara e castor de formas que permitiram seu consumo em períodos de jejum.
Como observa o teólogo Gerson Leite de Moraes, a prática foi ressignificada ao longo do tempo, e quando algo vira hábito consumidor em um mercado, a tradição se amplia, pois “tem gente que vende e gente que consome”, e o bacalhau seguiu esse caminho.
Em resumo, o bacalhau na Sexta-Feira Santa virou prato típico no Brasil por uma combinação de **simbolismo religioso**, **praticidade de conservação** e **influência portuguesa**, e sua presença nas mesas continua entre memória cultural e lógica mercantil.
