Da colonização portuguesa ao pragmatismo culinário, entenda como o bacalhau passou a substituir a carne na Sexta-Feira Santa e virou costume popular
Bacalhau domina muitas mesas na Sexta-Feira Santa, tradição presente em famílias católicas de diferentes regiões do Brasil. A pergunta é simples, e a resposta vem da história, da religião e da prática, juntas.
O costume combina a prática do jejum, símbolos cristãos ligados ao peixe, e a chegada do bacalhau trazido pelos portugueses, que o consumiam por ser fácil de conservar.
Esses pontos e relatos de especialistas ajudam a explicar a tradição, conforme informação divulgada pelo g1
Jejum e simbolismo religioso
“Tudo começa, na verdade, com o jejum”, afirma a vaticanista Mirticeli Medeiros, pesquisadora de história do catolicismo. A quaresma, e em especial a Semana Santa, são vistos como tempo de penitência, reconciliação e austeridade.
Para muitos teólogos e historiadores, a abstinência não é apenas econômica, é simbólica. Como explica o historiador André Leonardo Chevitarese, “A chave para pensar essa questão, se não é econômica, tem a ver com a questão religiosa”.
Por que peixe, e por que evitar carne vermelha
O peixe ganhou sentido religioso entre cristãos primitivos, inclusive como símbolo associado à palavra grega ichthys. Para além do símbolo, no século 13, Tomás de Aquino ajudou a consolidar a ideia de que a abstinência deveria atingir alimentos prazerosos, entre eles a carne.
Segundo especialistas, a carne vermelha foi associada ao prazer do paladar e aos “pecados da carne”, tornando o peixe uma alternativa apropriada para o período de penitência.
Bacalhau, conservação e influência portuguesa
Não há uma ordem da Igreja que determine o consumo do bacalhau, “Não há nenhuma prescrição da Igreja sobre o uso do bacalhau”, frisa Medeiros. A popularidade do produto no Brasil, porém, tem causa prática e histórica.
O consumo do bacalhau foi intensificado com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, e com a presença de empórios que passaram a vender a iguaria. Como observa a pesquisadora, “Por ser considerado um peixe de longa conservação, muitos fiéis o consumiam durante toda a quaresma”.
Tradição, custo e mercado
O padre Eugênio Ferreira de Lima manifestou surpresa com a prática, ao lembrar que “Sobretudo porque bacalhau é mais caro do que certas carnes”. A observação expõe a tensão entre tradição religiosa e realidade econômica.
Para o historiador Gerson Leite de Moraes, a prática se insere em uma cultura que transformou hábitos religiosos em mercadoria, e, como ele diz, quando algo “cai no gosto da prática mercantilista comercial, tudo vira mercadoria”.
Em suma, a presença do bacalhau na Sexta-Feira Santa no Brasil resulta da combinação entre a tradição católica do jejum, símbolos religiosos ligados ao peixe, a praticidade de um alimento salgado que se conserva sem refrigeração, e a difusão da iguaria pelo mundo lusitano após a chegada da corte portuguesa.
