Mapa do Ministério Público cruza dados oficiais e mostra que 76,4% dos casos ocorrem em casa, 68,9% das vítimas tinham histórico de violência, e faixas no Oeste e na Serra têm taxas mais altas
O levantamento organizado pelo Ministério Público de Santa Catarina reúne dados oficiais e oferece uma visão detalhada sobre como o feminicídio em SC se manifesta, quem são as vítimas e onde se concentram os incidentes.
O estudo aponta vínculos frequentes entre vítima e autor, modalidades de arma utilizadas e horários de maior ocorrência, informações que ajudam a identificar padrões e pontos de intervenção.
Os números e análises também mostram lacunas nos serviços de proteção e acolhimento, trazendo à tona perguntas sobre onde essas mulheres ficaram antes do desfecho letal, conforme informação divulgada pelo g1.
Perfil das vítimas e vínculo com o autor
O mapa revela que, no conjunto dos casos, 40,8% dos crimes foram cometidos pelo companheiro ou cônjuge e 23,1% pelo ex-companheiro ou ex-cônjuge, dados que mostram a centralidade da intimidade nas situações letais.
Entre os feminicídios íntimos, a ruptura do relacionamento aparece como o ponto crítico, 45,8% ocorrem em decorrência do término da relação, reforçando a necessidade de atenção imediata em processos de separação.
Como os crimes ocorrem, horários e armas
Os dados indicam que 76,4% dos casos acontecem dentro de casa, e que o uso de arma branca, 47,7%, é mais que o dobro do uso de arma de fogo, 22,9%, sugerindo ataques com objetos disponíveis no momento.
O estudo também aponta que 56,4% dos feminicídios ocorrem à noite ou madrugada, com concentração entre a noite de sexta-feira e a madrugada de segunda, 41,1%, um padrão que pode orientar rondas e serviços de proteção.
Corredores do crime no território de Santa Catarina
A análise territorial identificou o que o estudo chama de corredores do feminicídio. Um corredor no Oeste, entre Xanxerê e São Miguel do Oeste, concentra as maiores taxas de letalidade feminina do período analisado.
Outra faixa relevante se estende entre Lages e Curitibanos, formando uma região intermediária com indicadores significativamente superiores aos registrados no litoral e nas grandes cidades, sinalizando necessidade de políticas regionais específicas.
Histórico de violência, falhas nos serviços e tentativas
O mapa aponta que 68,9% das vítimas tinham histórico prévio de violência, ainda que nem sempre registrado nos sistemas de proteção, o que sugere falhas de acesso, informação e acolhimento.
Como observou a promotora responsável pela análise, “A pergunta que os dados nos devolvem é: onde estavam essas vítimas antes do desfecho letal? Onde essa história de violência permaneceu silenciada ou invisível ao longo do caminho? Esses relatos aparecem nos processos, mas, na maioria das vezes, não chegaram aos serviços de proteção”.
Além dos homicídios consumados, um levantamento divulgado pela NSC TV mostra que, no primeiro trimestre de 2026 até 13 de março, houve 42 tentativas de feminicídio em SC, o que equivale a uma tentativa de matar uma mulher a cada 40 horas.
As cidades com maior número de tentativas nesse período estão na região Norte, com São Francisco do Sul e Joinville registrando três cada, dados que reforçam a urgência de medidas regionais e de prevenção.
O mapa do Ministério Público fornece um retrato detalhado do feminicídio em SC, combinando estatísticas, territórios e histórias que apontam para intervenções necessárias em serviços de segurança, saúde e assistência social.
